Histórias de Vida

Duarte da Costa Faria 1929-12-29

Duarte da Costa Faria nasceu a 29 de Dezembro de 1929 em S. Cosme do Vale, Vila Nova de Famalicão. Filho de carpinteiro e doméstica, era o mais novo de três irmãos e fazia a lida da casa porque tinha a mãe doente. Cedo acompanhou o pai no serviço e tornou-se carpinteiro. Trabalhou vinte e sete anos na Oficina das Cinco Estrelas em Gavião e fugiu para França a monte à procura de uma vida melhor. Casou com Jaquelina Pinto de Oliveira e teve sete filhos.


Depoimento

E 1: Boa tarde, por favor pode-nos dizer o seu nome completo e a sua data de nascimento?
D: Duarte da Costa Faria, nasci em 29 de Dezembro de 1929.

E 1: Como foi a sua infância?
D: Desde a minha infância que tenho trabalhado muito. Eu era o mais novo de três irmãos e era a cachopa da casa! Eu despejava os bacios no campo das couves, cozia a broa, cozinhava, levava as ovelhas ao monte e ainda ia para a escola. No fim da escola trabalhava no quintal e à noite ia buscar o rebanho. Às vezes trabalhava com o meu pai e fazíamos serão até à meia-noite. Foi sempre uma vida muito escrava. Então quando cheguei à idade de poder com o martelo e com uma marreta comecei a trabalhar sozinho.

E 1: Qual foi o seu primeiro trabalho?
D: O primeiro trabalho que tive foi a fazer uns furos numas pedras de um galinheiro. De manhã até à noite ganhava cinco escudos. Lembro-me que para ganhar esses cinco escudos dava bastante marteladas nos dedos. Nessa altura davam-me azeitonas, um bocado de pão de quinze dias, um bocadinho de água-pé e o trabalho seguia. Trabalhei sempre com o meu pai até à altura que me casei. Depois empreguei-me numa oficina e ainda fui trabalhar para Espanha e depois para França.

E 1: Qual era o seu trabalho em Espanha?
D: Quando trabalhava em Espanha estava numa central e o trabalho era muito perigoso. Como não davam abono tornei para Portugal porque precisava desse dinheiro para manter a família. Nessa altura anseava fazer uma casa e então decidi ir para França. Pedi autorização para trabalhar lá mas não ma deram. Decidi ir a monte. Fui em 1968, no ano em que morreu Oliveira Salazar. Trabalhei lá 26 meses e assim consegui endireitar um bocadinho a minha vida. Em França transportava madeiras para sítios altos onde as gruas não chegassem. Uma altura fiquei com o meu dedo pregado numa prancha e ainda tenho aqui a cicatriz! Enfim, tudo chegou para castigar mais o caniço!

E 1: E quando regressou?
D: Quando voltei consegui restaurar a casa dos meus falecidos sogros com o dinheiro que lá ganhei. A minha mulher era doméstica e não ganhava. Andava com os filhos no braçado!

E 1: Qual era a profissão do seu pai?
D: O meu pai era carpinteiro, mas já tinha sido jornaleiro. Ele ficou sem mãe muito cedo e o padrinho tomou conta dele. Nessa altura andava ao jornal porque o padrinho não tinha condições para o empregar. O meu pai ia ganhar um bocadinho para as extravagâncias dele. Era um homem poupado mas precisava sempre de ter umas coroas no bolso. Depois foi para a tropa e quando veio da tropa pensou em trabalhar para ter um futuro melhor. Comprou uns martelos, uns formões, uns serrotes e começou a dedicar-se à carpintaria. Tornou-se no melhor artista de Vale S. Cosme. Quando trabalhava com o meu pai, nós arranjávamos espigueiros, fazíamos ramadas, carros e açoucos. Fazer ramadas era o pior trabalho. Era um frio de rachar que até as mãos roíam. Subíamos os rios, ficávamos gelados e havia dias em que o nosso ganho era uma molhadela. A minha mãe, de madrugada, com um bocado de lenha verde e ainda molhada, secava-nos a roupa para no outro dia a molhar-mos outra vez. O meu pai tinha coragem e eu ajudava-o. Era assim a nossa vida e com o meu pai eu nunca me zanguei. Muitas vezes ele nem precisava de me mandar porque eu tinha vontade e o trabalho fazia-se. Quando íamos fazer ramadas e levávamos os cesteiros às costas, o meu pai dizia-me para eu ter cuidado com o esforço que fazia. Dizia que ele já estava rendido da força que tinha feito e se eu não me cuidasse podia ficar rendido também. Eu só dizia: "Meu pai, onde eu botar as minhas mãos o trabalho vai!" Mas cheio de coragem e de vontade nunca negava o trabalho.

E 1: O que faziam os seus irmãos nessa altura?
D: O meu irmão mais velho, depois de casar, foi trabalhar para uma firma e o outro era fabricante, mas quando casou saiu de casa. Eu fiquei com os mais velhos até me casar também e depois deixei acompanhar o meu pai. Tive que me empregar para poder comprar um bocado leite e pão para os meus filhos. Era tudo uma miséria!

E 1: Quando é que se empregou pela primeira vez?
D: Eu trabalhei na Oficina das Cinco Estrelas, no lugar das Minas em Gavião. Era a oficina do senhor Manuel Ferreira da Silva. Trabalhei lá 17 anos antes de ir para França e mais dez quando voltei para Portugal. Fui o primeiro carpinteiro que ele teve e era o trabalhador mais antigo na casa. Hoje trabalho para as feiras de artesanato e faço outros trabalhos leves para qualquer amigo que me bata à porta.

E 1: Gosta de trabalhar ao vivo?
D: Gosto muito. Eu participei na primeira feira de artesanato de Famalicão e lembro-me de alguns participantes. Uma tecedeira de Jesufrei, a D. Emília Rebelo, um cesteiro aqui de Arnoso, o senhor Sousa, um jugueiro que era o senhor Domingos e outros. Depois quando adoeci falhei dois anos nos artesanatos. Mas um dia estava em Famalicão à espera da camioneta na central e estava um cartaz sobre o artesanato em Famalicão. Pôs-me assim a ler e tinha lá o meu nome. Deu-me assim uma coisa dentro de mim e decidi participar outra vez. E então continuei e hei-de continuar enquanto puder. Sempre gostei destas coisas. Qualquer coisa me serve, logo que seja de negócio de madeiras. É a arte que eu tenho. Também tenho a música. Andei muitos anos na banda de Sezures com o mestre José Maria Sá. Ganhava pouco mas gostava da música e pronto. Às vezes logo no dia a seguir à festa onde fossemos tocar já estávamos à porta da patroa a pedir os 20 escudos que íamos ganhar. Ganhava pouquinho e tinha muita família e precisava daquele bocadinho. Hoje tenho instrumentos e se for preciso tocar nalgum lado estou sempre pronto. Até mesmo tocar um bocadinho nas feiras de artesanato.

E 1: O senhor Duarte disse há pouco que foi a monte para França. Pode-nos contar um bocadinho?
D: Eu tinha lá uma minha cunhada e pedi-lhe para me arranjar um contrato. Ela foi muito minha amiga. Mandou para cá o contrato e eu foi à Câmara para me autorizarem a ir trabalhar para lá. Quando recebi a resposta de Lisboa, lá por intermédio do ministro Oliveira Salazar, o papel tinha um canto cortado e um risco ao revês. O funcionário da Câmara disse-me que nem por contrato me deixavam ir para França. E eu mesmo assim fui.

E 1: Como é que conseguiu chegar a França?
D: Fui a monte. Sofri um bocadinho bem bom porque íamos sujeitos a ser apanhados. Ia eu, o passador e outro rapaz que estava a fugir da tropa. Em Santomil passámos perto de um moinho de água e para atravessar o rio tínhamos que ir em cordão. Nem é bom pensar! Podia ser mesmo a nossa morte! Atravessámos o rio por um pontilhão estreito de meio metro de largo, amarrados uns aos outros com a água a passar por baixo. Depois tivemos que nos agarrar ao moinho com as unhas metidas na junta da parede. Nós íamos cheios de medo! Foi tudo muito custoso!
Ao passarmos a fronteira de Portugal para Espanha apercebi-me de duas pessoas que vinham ao nosso encontro. O passador e o outro colega não se tinham apercebido. Eram dois homens altos com um capote pelas costas. Quem havia de ser? Era a ronda espanhola. Então fizemos um desvio. Subimos acima de um combro de um lado da estrada e escondemo-nos debaixo de uns pinheiros. Ficámos ali a dormir até que acordei já gelado de frio. De manhã descemos outro vez pelo combro à estrada eles estavam no mesmo sítio à nossa espera e revistaram-nos. Eu levava só dois pares de meias, dois lenços e um porta-moedas com quatro escudos. No fim eles até foram nossos amigos: mostraram-nos a estrada que tínhamos que seguir e indicaram-nos um estabelecimento que àquela hora estava aberto onde podíamos tomar o pequeno-almoço. Disseram-nos que havia de passar um autocarro por lá e aconselharam-nos a apanhá-lo para chegar ao nosso destino. A primeira coisa que fiz foi lavar a cara num regato que havia ao lado da estrada porque ainda estava um bocado estremunhado e depois lá fomos. Entrámos então dentro do estabelecimento e foi lá que provei Coca-Cola pela primeira vez!

E 1: Conte-nos como é que a música entrou na sua vida?
D: Eu estudei numa escola particular onde aprendi a ler muito bem, a calcular quantos litros levava uma pipa e também aprendi música. Eu tinha paixão e nunca mais deixei de aprender música. Quando era um mancebo grande, já um homem fui para a tuna de S. Cosme. Andei lá ainda no tempo do mestre senhor Maia que morava em Requião. Eu ia lá todos os Domingos ao ensaio. O meu instrumento era o fagote. Depois quando ele faleceu ficámos sem mestre e tudo acabou. Mais tarde apareceu-me a casa um colega que já tinha andado na banda do Zé-Maria de Sezures e convidou-me para voltar. Aceitei logo no primeiro ensaio o novo mestre, o mestre Assunção, entregou-me um livro de solfejo. Começou-me a marcar o compasso e eu pronunciava as notas. Ele disse-me: "Bom, pronto já sei que você que sabe. Eu agora vou-lhe pedir uma coisa. Queria que você me tocasse o bombo!" Eu disse: "Não senhor Assunção, para o bombo não vou. Vou para outro instrumento: o clarinete ou a flauta." Mas ele insistiu e acabei por fazer o primeiro ensaio a tocar bombo. Olhei para o papel e toca a acompanhá-los e a coisa saiu limpa. Diz ele: "Pronto senhor Duarte, custe o que custar. Nem que você ganhe mais que os outros. Você é que tem que ficar para o bombo porque achámos que estamos bem servidos. Temos homem para ele!" E foi assim durante muitos anos. Depois deixei porque a vista começou-me a falhar e já estava na altura de dar a vez a outros!

E 1: O que é que gosta de fazer?
D: Gosto de estar agarrado ao serrote. Trabalho para me distrair e porque não posso estar quieto um bocado. Estar na cama é só quando uma pessoa realmente não pode trabalhar e disso enjoo depressa. Também gosto muito de participar nas feiras de artesanato. Enquanto puder não hei-de falhar a nenhuma. Gosto de levar a minha concertina para a feira de artesanato e faço lá um bocadinho de borga e animo a malta.

E 1: Senhor Duarte não se importa de tocar um bocadinho a sua concertina?
D: Com todo o gosto.

E 1 e E 2: Muito obrigada senhor Duarte!


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